Bauru - 15/02/2019 - 09h00

Assassino de Vitória é condenado a 50 anos de prisão

Marcele Tonelli - JCNet
 
 
"A Justiça dos homens foi feita, mas Deus sabe que não deixo de pensar nela um dia sequer." A frase de Gislene Aparecida Lopes resume a tristeza de uma mãe logo após ouvir a condenação do assassino de sua própria filha, de apenas 6 anos, proferida em decisão do Tribunal do Júri, nessa quinta-feira (14/02), em Bauru.
 
Ocorrido em 2012, o crime bárbaro foi cometido por Renato Alexandre Cury Martinelli (foto abaixo), de 40 anos, condenado a cumprir 50 anos de prisão por assassinar com requintes de crueldade Vitória Graziela Fernandes, em 30 de abril daquele ano. O tribunal durou pouco mais de 8 horas e a sentença, proferida pelo juiz titular da 1.º Vara Criminal, Benedito Antônio Okuno, considerou que a menina foi sequestrada, estuprada, lesionada, queimada viva e teve seu corpo ocultado por Renato Martinelli, que é ex-namorado de Gislene.
 
O réu foi sentenciado por homicídio quadruplamente qualificado, que resultou em 32 anos de pena. O Júri também o condenou a mais 11 anos e 8 meses por ter cometido estupro contra a garota, além de sequestro, que resultou em mais 2 anos e 4 meses de prisão. Houve também a ocultação de cadáver, que acrescentou mais 1 ano à pena. No mesmo processo, Renato respondeu ainda por um quinto crime, porém em ano anterior, o de tentativa de estupro contra uma amiguinha de Vitória, que na época tinha 5 anos, e teve a mãe arrolada como testemunha no caso em questão.
 
Ainda cabe recurso da decisão, mas a defesa não informou se irá recorrer.
 
Crime
Vitória Graziela sumiu por volta das 15h30 do dia 30 de abril de 2012, nos entornos da rua Nove, no bairro Fortunato Rocha Lima. Quando foi vista pela última vez, ela brincava com alguns amigos na casa de uma vizinha. Desde o sumiço, as suspeitas se voltaram a Renato Alexandre Cury Martinelli, que costumava dar doces para crianças no bairro e já havia se relacionado com a mãe de Vitória. A menina foi vista entrando no carro dele.
 
Dois dias depois, as polícias Civil e Militar encontram o Ômega Azul de Renato em um sítio localizado no distrito de Guaianás (28 quilômetros de Bauru). No mesmo dia, ele acabou confessando o crime bárbaro e indicou aos policiais o local onde o corpo estava, uma área de mata, na estrada entre o Jardim Tangarás e Parque Manchester.
 
O corpo foi encontrado totalmente queimado e em posição fetal, o que indicou que ela estava viva quando foi queimada. Na delegacia, o então acusado contou que havia batido com a cabeça da garota em uma torre de energia antes de atear fogo e, disse não lembrar das motivações, que teve uma espécie de "apagão" no dia. Na época, ele também negava o estupro e chegou a alegar que usava medicações e pediu um laudo atestando insanidade, mas sem êxito. A Justiça entendeu que ele é imputável e tem consciência do que fez.
 
Desde então, Renato permanece preso, atualmente em um presídio em Iaras, onde deve continuar cumprindo o resto da pena, conforme a sentença.
 
Ao longo do inquérito, a mãe de uma menina de 5 anos, que virou testemunha do caso, acusou Renato de uma tentativa de estupro anterior, contra a filha dela. A menina contou à mãe que Renato teria mostrado o genital e se insinuado.
 
Julgamento
Nessa quinta-feira (14/02), por maioria, o Conselho de Sentença reconheceu a materialidade e a autoria do crime, que teve como qualificadoras o fato de o assassinato ter sido cometido por motivo torpe, por emprego de meio cruel ao usar o fogo, por impossibilidade de defesa da vítima, uma criança, e pelo fato de o crime ter sido cometido contra menor de 14 anos.
 
O Júri entendeu que Renato estava pré-determinado, agiu com fins libidinosos e realizou penetração anal forçada na garota, além de agir com intenso dolo ao cometer os demais crimes de traumatismo craniano, esganadura e carbonização contra Vitória, acatando todas as acusações feitas pela Promotoria.
 
"Ao matar e ocultar, ele quis assegurar a impunidade aos crimes anteriores", comenta o promotor Alex Ravanini, que apresentou quatro testemunhas, sendo a mãe de Vitória, o delegado que investigou o caso na época, um policial militar e a mãe da garota de 5 anos, vítima de tentativa de estupro. Este último crime citado teria acontecido entre o final de 2011 e início de 2012, contra uma amiguinha de Vitória, e foi colocado pela Promotoria como reflexo probatório de que o réu teria perfil associado à pedofilia.
 
Ao longo do processo, nenhuma testemunha de defesa foi arrolada e ao menos quatro advogados desistiram de defender o réu. A defesa dele ontem foi constituída pela advogada Myrian Katayama e seu advogado assistente José Fernando da Silva. Eles sustentaram como tese a diminuição da pena pelo fato de o réu ser confesso. "A atenuante da confissão foi acatada e compensou o fato de o réu ser reincidente. Foi uma pena razoável para um crime bárbaro", pontua Myrian.
 
O Tribunal, contudo, entendeu que o réu não confessou o estupro contra Vitória e nem a tentativa de estupro contra a amiguinha dela. Como Renato é reincidente, por ter cometido um furto em 2011, a confissão dele no caso Vitória atenuou a pena da reincidência, que seria de mais 2 anos e 8 meses.
 
'Hoje, ela teria 13 anos e sonhava em ser advogada ou uma policial'
A saudade provocada pelos sete anos sem Vitória Graziela parecia estampada no olhar cabisbaixo de Gisene Lopes, 40 anos, todo o tempo que ela passou no Fórum aguardando Justiça. "Hoje, ela teria 13 anos e sonhava em ser policial ou advogada", lembra, emocionada. Menos de um ano após o crime, ela conta que se mudou com seus outros quatro filhos, de 22, 20, 17 e 4 anos, para casa de parentes em Itapetininga, como forma de apagar da memória a tristeza vivida em Bauru. Gislene tentou refazer sua vida e até teve outra filha, que leva no sobrenome "Vitória" em homenagem à irmã que ela, infelizmente, não conhecerá.
 
"Mas eu não consegui me livrar da depressão, aliás nunca recebi um apoio psicológico. Já aquele (Renato) tem terapia ao dispor na cadeia. Hoje, dependo dos meus filhos para me ajudarem e eles são a minha vida. Quero, inclusive, comprar um terreno e construir uma casa para cada um ao meu lado para que ninguém mais saia de perto dos meus olhos", finaliza a mãe de Vitória.
 
'Em 25 anos, nunca atuei em um caso tão cruel'
"Em 25 anos de promotoria, nunca atuei em um caso tão cruel. Uma criança ser retirada dos braços dos pais e ter sua vida ceifada desta forma", lamentou o promotor Alex Ravanini, minutos após o término de oito horas intensas de tribunal.
 
"É um caso com uma carga emocional muito grande, o delegado, os policiais, as testemunhas todas que vieram depor se mostraram ainda consternados", acrescentou o promotor, que teve todas as teses aceitas pelo Júri, considerado uma das maiores condenações recentes do Tribunal do Júri de Bauru.

 

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