Bauru - 26/03/2019 - 16h15

Mãe de jovem cadeirante apanha ao reclamar de veículo em guia rebaixada

Tisa Moraes e Samantha Ciuffa-JCNet

O desrespeito ao direito de acessibilidade de pessoas com deficiência associado à intolerância resultou em um triste episódio, no Núcleo Mary Dota, em Bauru. Uma mulher de 46 anos, mãe de um cadeirante de 17 anos, foi agredida por duas pessoas ao reclamar de um veículo estacionado, que bloqueava a passagem em uma guia rebaixada.

A vítima, a funcionária pública Solange Corrêa Ortiz (foto acima), registrou boletim de ocorrência (BO) por lesão corporal e reconheceu um dos agressores por meio de imagens de câmeras de segurança. Os nomes deles, um homem e uma mulher, ainda são desconhecidos.

O caso ocorreu na noite do último domingo (24), na quadra 18 da avenida Doutor Marcos de Paula Raphael. Moradora do Núcleo Mary Dota, Solange conta que estava indo com o filho Breno Corrêa Ortiz a uma padaria próxima, quando se deparou com um Gol prata, que bloqueava o acesso a uma rampa própria para cadeirantes.

Com certa dificuldade, ela conseguiu ajudar o jovem a descer da calçada sem usar a guia rebaixada e reclamou da falta de respeito do motorista, que sequer estava no veículo. "Como mãe defendendo o direito do meu filho, eu disse: 'adianta muito ter rampa de acesso se as pessoas param na frente'. Não tinha visto, mas tinha uma senhora no banco do passageiro e uma mulher no banco de trás. Essa mulher falou que não tinha atrapalhado nada, porque meu filho conseguiu descer da calçada, e começou a me xingar muito", comenta.

Revoltada, Solange empurrou uma das portas do carro, que estava aberta, o que gerou uma reação ainda mais agressiva. A mulher que estava no banco traseiro desceu do veículo e começou a dar socos, tapas e chutes na funcionária pública.

O filho cadeirante tentou interceder e, na sequência, o motorista do carro apareceu e também passou a agredir a vítima. "Fiquei com escoriações e hematomas em várias partes do corpo, no pescoço, na boca. Eu pedi ajuda, pedi socorro. Por sorte, um rapaz apareceu e entrou na frente, senão eu teria apanhado muito ali", observa.

Agressividade
Solange afirma já ter vivenciado muitos episódios de desrespeito à legislação que protege as pessoas com deficiência, mas conta que nunca tinha sido alvo de uma atitude violenta e desproporcional como esta.

Para psicóloga e professora universitária Sandra Sposito, não é possível afirmar que a agressividade como resposta diante de conflitos venha ganhando força no País, mas ela salienta que as pessoas, de algum modo, estão se sentindo mais autorizadas a reagir desta forma. Isso porque, segundo ela, há falta de responsabilização sobre a violação de direitos individuais e coletivos em todas as esferas da sociedade, inclusive em âmbito político.

"A resolução de conflitos, diferenças de opinião por meio de métodos violentos não é um modelo que brota do nada. Ele é resultado do estímulo à cultura do individualismo, da competição entre as pessoas, de olhar o outro como inimigo. E há grupos que se beneficiam disso, porque, enquanto as pessoas se acusam, se agridem, elas deixam de observar os aspectos maiores que incidem sobre este contexto", aponta.

Desrespeito com a acessibilidade gera média de duas multas por dia
O desrespeito à legislação de trânsito que protege o direito de ir e vir de cadeirantes gera, em média, cerca de duas multas por dia em Bauru. Segundo estatísticas da Emdurb, no ano passado, 317 proprietários de veículos foram autuados por estacionar em guia rebaixada e outros 324 foram multados porque estacionaram em vagas reservadas a pessoas com deficiência.

Em 2019, até fevereiro, já tinham sido contabilizadas 41 e 49 multas, respectivamente, por estes dois tipos de infração. É evidente, contudo, que o número dos que desprezam as normas tende a ser bem maior.

Nessa segunda-feira (25/03), durante os 40 minutos em que permaneceu na avenida Doutor Marcos de Paula Raphael para fazer a reportagem com Solange e Breno, a equipe do Jornal da Cidade viu ao menos cinco veículos estacionarem, sem a devida credencial emitida pela Emdurb, em uma vaga exclusiva para pessoas com deficiência. "O desrespeito é geral, especialmente quanto às vagas de estacionamento", lamenta a coordenadora do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Comude), Ana Paula de Souza Calixto Bitar (foto ao lado).

"Tivemos muitos avanços quanto à legislação, muitas conquistas foram alcançadas em termos de acessibilidade, mas há quem simplesmente ignore a importância da inclusão. Não consegue se colocar no lugar do outro, sem se dar conta de que, ele mesmo, pode um dia se tornar uma pessoa com deficiência", completa.

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