Geral - 04/07/2019 - 13h55

Vetado na Europa, frango com salmonela tem venda livre no Brasil

UOL

Reportagem publicada pelo site Uol mostra o resultado de uma investigação conduzida pela Repórter Brasil em parceria com o jornal britânico The Guardian e o Bureau of Investigative Journalism, que comprovou que, a carne de frango brasileira que é rejeitada no Reino Unido por contaminação pela bactéria salmonela volta ao Brasil e é revendida no mercado nacional. Entre abril de 2017 e novembro de 2018, mais de 1 milhão de aves congeladas (ou 1.400 toneladas) foram vetadas nos portos do Reino Unido por não atenderem aos padrões sanitários europeus – mais rigorosos do que os verificados por aqui.

Mesmo após Operação Carne Fraca, que apontou problemas no controle de qualidade da carne brasileira em 2017, portos europeus continuam rejeitando entrada de contêineres brasileiros com produtos contaminados. Carne volta ao Brasil, é processada e chega às prateleiras dos supermercados.

O retorno ao Brasil dos contêineres com produtos contaminados foi comprovado por documentos internos obtidos junto à agência britânica de padrões alimentares (Food Standards Agency). Além de confirmarem a volta desse frango contaminado ao Brasil, o Ministério da Agricultura e a a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) esclareceram o que acontece com essa carne quando volta ao País.

No mercado brasileiro, o produto vetado pode seguir dois caminhos, a depender do tipo de salmonela presente. Se forem bactérias com risco potencial à saúde humana – o que acontece em menos de 1% dos casos, segundo o ministério –, o frango contaminado é cozido, e a carne é processada em subprodutos, como nuggets, salsichas, linguiças e mortadelas de frango. Já se a contaminação for por bactérias que, de acordo com os padrões brasileiros, não apresentam riscos à saúde, o produto “in natura” é colocado no mercado interno e chega aos açougues e supermercados.

O cozimento ou a fritura da carne contaminada elimina o risco à saúde, já que mata os micro-organismos, de acordo com a diretora do Departamento de Inspeção dos Produtos de Origem Animal (DIPOA), do Ministério da Agricultura, Ana Lucia Viana. Existem cerca de 2.600 tipos de salmonela, mas não são todos que causam infecções alimentares em humanos – há dois tipos, porém, que podem levar à morte.

No Brasil, testes realizados pelo Ministério da Agricultura mostram que cerca de 18% da carne de frango apresentam algum tipo de contaminação por salmonela – o que está dentro dos limites legais, já que a regulamentação brasileira tolera até 20% de contaminação. Na Europa, o percentual de aves contaminadas é de apenas 3,3% , segundo o órgão europeu responsável por segurança alimentar, o EFSA (European Food Safety Authority).

Até 2017, não existiam normas brasileiras regulamentando o que fazer com a carne rejeitada na Europa e despachada de volta ao Brasil – a decisão do que fazer com esses contêineres cabia então às empresas donas das cargas. Após o escândalo provocado pela Carne Fraca, o Ministério da Agricultura editou uma norma dando aos fiscais agropecuários a palavra final sobre o processamento da carne quando ela é vetada no exterior e volta ao Brasil.

Antes da Carne Fraca, em 2016, o governo estabeleceu normas para controlar a salmonela nas granjas – ampliando assim a fiscalização, que antes estava concentrada somente nos frigoríficos. Apesar dessas novas regras, os índices de contaminação no Brasil continuam nos mesmos patamares, já que o percentual de contaminação de 18% continuou estável entre 2014 e 2017 – último ano com resultados disponíveis.

Os documentos obtidos pela reportagem mostram que uma parte do frango brasileiro vetado nos portos britânicos foi exportada pelas duas maiores empresas brasileiras do setor: a JBS, dona da Friboi e da Seara, e a BRF, proprietária das marcas Sadia e Perdigão.

As empresas negam falhas nos procedimentos sanitários e em seus padrões de qualidade. Em relação aos produtos enviados para a Europa, a JBS informou, em nota, que segue todos os procedimentos determinados pela legislação e pelos órgãos reguladores. “Não há registro de ocorrências reportadas por consumidores em seus diferentes mercados, nacional ou internacional, o que reitera a conformidade dos processos adotados pela empresa e a segurança dos seus produtos.”, afirma a maior produtora de proteína animal do mundo.

Já a BRF afirmou, por meio de um comunicado, que “cumpre as normas e exigências de qualidade estabelecidas na legislação brasileira e as determinações do MAPA, e baseia sua atuação nos compromissos de segurança, qualidade e integridade”.

Guerra comercial?
As exportações de carne de frango para a União Europeia caíram 18% entre 2016 e 2018, justamente por conta das revelações feitas pela Operação Carne Fraca. O embargo europeu foi interpretado pelas empresas e autoridades brasileiras como uma “guerra comercial” contra o frango nacional. O caso, no entanto, revela profundas diferenças sanitárias nas políticas de controle da salmonela na Europa e no Brasil.

A União Europeia deu início há 15 anos a um programa de controle de salmonela em aves de criação e nas destinadas para o abate. Com um rigoroso padrão de monitoramento da granja aos supermercados, as taxas de infecção no continente caíram de 23%, em 2006, para os atuais 3,3%. O número de pessoas infectadas pela salmonela caiu de quase 200 mil para 91 mil no mesmo período na Europa. No ano passado, 156 pessoas morreram no continente após serem infectadas por salmonela.

Já no Brasil, é impossível de saber precisamente quantas pessoas morreram ou foram infectadas. Isso porque a notificação de casos de salmonela por parte das unidades de saúde pública não é obrigatória.

Por esse motivo, o número do Ministério da Saúde sobre internações em decorrência de intoxicação por salmonela – 2.569 casos em 2018, o equivalente a sete por dia – pode ser muito maior. “A salmonela é sempre uma preocupação. Se é maior ou menor agora, não sabemos, porque não temos dados confiáveis”, diz a especialista em segurança alimentar Bernadette de Melo Franco, da Universidade de São Paulo (USP).

Últimas notícias