Geral - 29/01/2019 - 16h25

Animais na lama são mortos a tiros em Brumadinho; ativistas protestam

Redação/Folha

As forças de segurança responsáveis pelas buscas em Brumadinho afirmam que animais presos na lama do rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, da Vale, só são mortos se estiverem agonizando.

O abatimento de animais a tiros por helicópteros da Polícia Rodoviária Federal se tornou alvo de polêmica nesta terça-feira (29/01). Segundo o tenente Pedro Aihara, porta-voz do Corpo de Bombeiros, o sacrifício é feito normalmente com injeção letal, mas outros métodos estão sendo utilizados devido à dificuldade de acesso aos animais.

Sobretudo vacas e aves estão presos na lama. Segundo Aihara, 26 já foram resgatados e levados para duas fazendas, onde recebem atendimento veterinário.

Há ainda animais presos na lama que estão recebendo água e comida enquanto aguardam o resgate.

“Na cena crítica, temos alguns animais que estão recebendo no local alimentação e água, porque a remoção ainda não é possível. A prioridade é o salvamento de pessoas ainda. No momento adequado, serão recolhidos”, disse o coronel Evandro Borges, chefe do gabinete militar e da Defesa Civil de Minas Gerais.

Borges pediu que o sacrifício de animais não seja polemizado. “Não vamos polemizar essa situação, que é algo dentro do procedimento de atendimento de socorrimento de uma crise dessa natureza.”

Aihara afirmou que os animais abatidos apresentam fraturas ou perfurações que tornam impossível o seu salvamento.

Segundo as forças de segurança, o resgate e o abate de animais está sendo acompanhado por veterinários, inclusive alguns cedidos pela Vale, e pelo Ibama.

“O abate somente é efetuado em último caso, quando os animais estão agonizando em estado terminal”, disse Borges. Há uma avaliação dos veterinários para recomendar ou não o sacrifício do animal.

“Não é ético insistir no sofrimento desses animais”, completou Aihara.

'Estamos sendo sabotados'
Defensora contumaz dos animais, a apresentadora Luisa Mell protestou contra a decisão da Defesa Civil de Minas Gerais de sacrificar os bichos que ficaram atolados na lama após o rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho.

Acostumada a participar de missões de resgate de animais, Luisa viajou até Brumadinho para tentar ajudar no resgate de animais presos na lama, como vacas. Fez uma série de vídeos no Instagram para reclamar contra a decisão de executá-los.

"Se tivesse que fazer sacrifício, tinha que fazer sacrifício decente. Não ficar executando os animais a tiro. Desgraçados. Isso não é maneira decente de matar os animais. Quem foi o veterinário que autorizou uma palhaçada dessas?", xingou a apresentadora.

Ela também desabafou na rede social. "É devastador ver toda esta tragédia pessoalmente! Quantas pessoas perderam a vida? Quantas famílias foram destruídas? A natureza chora... a destruição está por toda parte... e muitos animais ainda estão ilhados na lama... estamos tentando de tudo! Mas infelizmente estamos encontrando todo o tipo de dificuldade para resgatá-los! Eles estão vivos! Eles estão sofrendo! Me digam por que não merecem todo nosso esforço? Cada hora faz a diferença entre a vida e a morte", escreveu a apresentadora.

Ontem, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Luisa afirmou que e sua equipe estão sendo "sabotados". "Viemos todos voluntariamente, compramos tapumes para o resgate - que a empresa não quis comprar - e eles não nos deixam entrar nem para mapearmos os animais", afirmou.

Para Luísa, a maior preocupação da empresa é com a imagem: "eles não querem que as pessoas filmem a tragédia. Não queriam que entrássemos com celular", revela.

PRF
Em nota divulgada à imprensa, a PRF destacou que outros animais (principalmente bovinos e caninos, em situações mais favoráveis) foram alimentados e hidratados para conseguirem sobreviver até serem resgatados.

Segundo o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), os médicos-veterinários da Comissão de Bem-Estar Animal, do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-MG), estão acompanhando os trabalhos de resgate de animais em Brumadinho e confirmou o abate.

"Sob a supervisão de equipe veterinária, nesta segunda-feira (28/1), dois animais (um equino e um bovino), que estavam atolados há 4 dias em local de difícil acesso, tiveram de ser abatidos por meio de rifle sanitário", afirma nota da instituição.

GOVERNO DE MG DIZ QUE NÃO AUTORIZOU A AÇÃO
A polêmica em torno do abate fez com que o governo de Minas Gerais divulgasse um comunicado sobre os casos de resgastes e de eutanásia de animais em Brumadinho. Segundo a administração estadual, aqueles que estão sendo encontrados e removidos com vida, estão sendo encaminhados para um sítio em que recebem o tratamento adequado. Porém, os que não têm condições de serem resgatados, têm a eutanásia feita apenas por médicos veterinários e em casos extremos.

O texto não cita especificamente a iniciativa da PRF, mas reforça que "em nenhum momento houve autorização por parte do Gabinete Militardo Governador/Coordenadoria Estadual de Defesa Civil para o abate de animais aleatoriamente ou por meio de métodos em desacordo com as normas".

JUSTIÇA MANDA VALE RESGATAR ANIMAIS DA LAMA
A juíza de direito plantonista da Comarca de Brumadinho, Perla Saliba Brito, determinou que a Vale ofereça medicamentos, alimentos, maquinários e "todo e qualquer meio adequado ao resgate, acolhimento e tratamento dos animais agonizantes na lama da barragem Córrego Mina do Feijão que rompeu na última sexta-feira".

Em caso de descumprimento, a magistrada definiu multa diária de R$ 50 mil, além de incursão no crime de desobediência. A juíza enfatizou que essa ação não deve, em hipótese alguma, prejudicar a atuação dos bombeiros no resgate das vítimas humanas.
 

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